Niterói se tornou referência nacional no enfrentamento à violência contra a mulher. A cidade completou mais de um ano sem registrar nenhum caso de feminicídio — o último ocorreu em fevereiro de 2025 — um resultado raro para um município de porte médio em um país onde os casos de violência de gênero seguem em alta. Para Fernanda Neves, pedagoga e uma das principais responsáveis pela construção dessa política pública, o número não é fruto do acaso, mas de um trabalho estruturado ao longo de anos.
“Dar voz a uma mulher é um ato político”, resumiu Fernanda em entrevista recente ao programa Conversas com Hildergard Angel, da TV 247, ao comentar os resultados alcançados pela cidade entre fevereiro de 2025 e março de 2026.
Um modelo construído em três frentes
Segundo Fernanda, a política de Niterói foi organizada de forma deliberada em torno de três eixos que se completam: prevenção da violência, acolhimento das vítimas e criação de portas de saída — ou seja, caminhos concretos para que as mulheres consigam reconstruir suas vidas depois de romper com o agressor.
No acolhimento, a cidade conta com uma rede que combina o Centro Especializado de Atendimento à Mulher (CEAM) Neuza Santos, núcleos de atendimento distribuídos por diferentes regiões, a Sala Lilás e uma rede de saúde ampliada. A proteção também se estende à segurança, com a Patrulha Guardiã Maria da Penha e o aplicativo SOS Mulher, que permite acionar ajuda rapidamente em situações de risco.
Já na autonomia financeira — considerada por Fernanda um dos pilares mais decisivos — a prefeitura oferece um auxílio mensal equivalente a um salário-mínimo, por até um ano, para mulheres em situação de violência, além do Cartão Vai Mulher, que garante gratuidade no transporte público para essas beneficiárias. Mais de 600 mulheres já passaram pelo programa. Completa esse eixo o Espaço Empreender Mulher, voltado à qualificação profissional e à geração de renda.
“O desafio de produzir e construir uma sociedade que respeite as mulheres e garanta uma vida sem violência ainda é um processo de construção histórica”, afirma Fernanda.
A prevenção começa na escola
Para Fernanda, nenhuma política de proteção é completa sem investimento em prevenção — e isso começa na infância. Niterói mantém ações permanentes nas escolas municipais, com debates, orientação e conscientização desde cedo, além de programas de formação para agentes públicos, incluindo guardas municipais, capacitados para identificar e agir diante de situações de risco.
A estratégia se soma a projetos voltados à juventude, com incentivo à educação, ao esporte, à cultura e à qualificação profissional — uma forma de atuar na raiz do problema, e não apenas em sua consequência. “É um movimento da cidade, de toda a gestão pública comprometida”, resume Fernanda.
Educação também é oportunidade: o aluguel universitário
Entre as iniciativas que Fernanda destaca como parte dessa visão mais ampla de cuidado está o programa de aluguel universitário de Niterói, que oferece apoio financeiro a estudantes de outras cidades que escolhem o município para cursar o ensino superior. A medida ajuda esses jovens a permanecerem na universidade, fortalece sua formação acadêmica e ainda movimenta a economia local. Somente do Sul Fluminense, cerca de 50 estudantes já foram beneficiados pelo programa — dois deles moradores de Volta Redonda.
Um modelo que pode ser levado a todo o estado
Fernanda defende que essa experiência, construída com planejamento de longo prazo, não precisa ficar restrita a Niterói. “É um compromisso com a vida das mulheres. Quando se protege a mulher, se protege toda a família e a sociedade”, afirma.
É esse o argumento central da sua atuação: o que já funciona em uma cidade pode — e deve — ser levado ao restante do Rio de Janeiro. Em um cenário nacional ainda marcado pelo crescimento dos casos de feminicídio, Niterói se tornou prova viva de que outro caminho é possível quando existe decisão política, planejamento e continuidade.
Fernanda também recorda, entre suas experiências mais marcantes, o encontro que teve ao lado do marido, o prefeito Rodrigo Neves, com o Papa Francisco — um momento que, segundo ela, reforçou ainda mais seu compromisso com o serviço público e com a construção de uma sociedade mais justa.



